3# REPORTAGENS novembro 2013

     3#1 CAPA  A CINCIA DA F
     3#2 HISTRIA  OS NOMES PREFERIDOS DO BRASIL
	3#3 CULTURA  A ERA DE OURO DOS GAMES
	3#4 VIDA LKA  MEU DIA DE BANDIDO
	3#5 ZOOM  BOOM
	3#6 MUNDO  O HAITI  DAQUI
	3#7 DINHEIRO  NERD$ VO S COMPRAS
	3#8 COMPORTAMENTO  ONDE OS GORDOS NO TM VEZ
	3#9 SADE  CAFEINMETRO
	3#10 ESPAO  DOS RASTROS AOS ASTROS

3#1 CAPA  A CINCIA DA F
A cincia se curvou aos fatos: dezenas de estudos mostram que fiis so mais felizes, vivem mais e so mais agradveis. Mas tambm no h mais dvidas de que  possvel reproduzir esses efeitos em ateus e pessoas sem religio. Acredite.
REPORTAGEM / Slvia Lisboa. EDIO / Felipe van Deursen

     "Como voc professa sua f?", pergunta o mdico Paulo de Tarso Lima a seus pacientes na primeira consulta. Conversar sobre isso virou rotina no setor de oncologia em um dos mais conceituados hospitais do Brasil, o Albert Einstein, em So Paulo, onde Lima  coordenador do Servio de Medicina Integrativa. Se o doente vai  missa, ele anota na receita: aumentar a frequncia aos cultos. Se deseja a visita de um padre, rabino ou pastor, o hospital manda chamar. Se quiser meditar, professores de ioga so convocados. No hospital, a f  uma arma no tratamento de doenas graves. 
     A Santa Casa de Porto Alegre tambm trabalha nesse sentido. O hospital est realizando uma pesquisa indita, em parceria com a Universidade Duke, nos Estados Unidos, para mensurar os benefcios biolgicos da f. O objetivo  descobrir se os pacientes espiritualizados submetidos  cirurgia de ponte de safena tm menos inflamaes no ps-operatrio  hiptese j levantada por outros estudos. "Existe um marcador de inflamao que parece apresentar menores nveis em religiosos" , explica o cardiologista Mauro Pontes, coordenador do Centro de Pesquisa do Hospital So Francisco, um dos sete hospitais do complexo Santa Casa da capital gacha. 
     Hoje, as principais faculdades de medicina americanas dedicam uma disciplina exclusiva ao assunto. E, na ltima dcada, uma srie de estudos mostrou que os benefcios da f  sade tm embasamento cientfico. Devotos vivem mais e so mais felizes que a mdia da populao. Aps o diagnstico de uma doena, apresentam nveis menores de estresse e menos inflamaes. "O paciente com f tem mais recursos internos para lidar com a doena", diz Paulo Lima. F tem uma participao especial no que mdicos e terapeutas chamam de coping: a capacidade humana de superar adversidades. "No posso prescrever bem-estar, mas posso estimular que o paciente v em busca de serenidade para encarar um momento difcil", explica o mdico.  por isso que mais profissionais tm defendido essa relao. "Atender s necessidades espirituais tem de ser, sim, tarefa do mdico'', defende o cirurgio cardaco Fernando Lucchese, que est escrevendo o livro A Revoluo Espiritual com o psiquiatra americano Harold Koenig, autoridade no assunto. 
     H um sculo, o canadense William Osler, cone da medicina moderna, j defendia isso. Em 1910, ele escreveu um artigo cheio de floreios elogiosos s crenas das pessoas: "a f despeja uma inesgotvel torrente de energia". 
     A designer Juliana Lammel, 33 anos, vivenciou isso. Em 2005, cansada de tantas operaes sem sucesso para corrigir um estreitamento no ureter, canal que liga os rins  bexiga, ela resolveu fazer uma cirurgia espiritual, mesmo sem ter nenhuma ligao com o espiritismo. "Para mim, era sinnimo de filme de fantasma", lembra. Ela topou  e sem ceticismo. Para ter resultado, Juliana teria de acreditar piamente, j que o tratamento esprita exige f do paciente. 
     Uma vez por semana, por um ms, na mesma hora, ela deitava na prpria cama por 30 minutos, ao mesmo tempo em que o grupo esprita fazia a concentrao. Ela em So Paulo, eles no Rio de Janeiro. No fim, Juliana voltou ao mdico com novos exames. Ele viu os resultados e no conseguia explicar por que os componentes alterados do rim tinham voltado a nveis quase normais. Juliana foi operada mesmo assim, mas o procedimento foi bem menos agressivo do que o previsto, graas, segundo ela,  cirurgia espiritual. O episdio mudou a forma como a designer lida com a f. "Antes, me forava a acreditar em algo. Depois disso, passei a acreditar de verdade". 

VANTAGENS NO DIA A DIA 
     Uma das maiores pesquisas feitas at hoje, divulgada em 2009, revisou 42 estudos sobre o papel da espiritualidade na sade, que envolveram mais de 126 mil pessoas. O resultado mostrou que quem frequenta cultos religiosos pelo menos uma vez por semana tem 29% mais chances de aumentar seus anos de vida em relao queles que no frequentam. No  interveno divina. No  feitiaria.  comportamento. Os entrevistados que so religiosos apresentaram um comprometimento maior com a prpria sade. Iam mais ao dentista, tomavam direitinho remdios prescritos, bebiam e fumavam menos. A pesquisa confirmou ainda os dados de um estudo populacional feito em 2001 pelo Centro Nacional de Adio e Abuso de Drogas dos EUA: adultos que no consideram religio importante em suas vidas consomem muito mais lcool e drogas do que os que acham os credos relevantes.  a verso real dos Simpsons e seus exageros estereotipados. Homer faz pouco de qualquer f,  obeso e alcolatra. J seu vizinho, o carola Ned Flanders,  regrado, tem sade perfeita e corpo sarado. 
     Andar na linha  mais comum entre os crentes, e a razo est no poder de autocontrole, dizem os cientistas.  o que defende o psiclogo Michael McCullough, Professor da Universidade de Miami e parceiro de Harold Koenig em pesquisas sobre espiritualidade, ele diz que a f facilita a rdua tarefa de adiar recompensas, algo fundamental para muita coisa, de fazer dieta a estudar para concursos. A f tambm tem uma relao ntima com a felicidade. Um estudo feito na Europa mostrou que pessoas espiritualizadas se dizem mais satisfeitas do que aquelas que no se consideram como tal. Parte disso se explica na natureza de ateus e cticos em geral. Quem no acredita em nada pode ter mais propenso ao pessimismo porque faz uma leitura objetiva da vida, sem crer em algo divino que mude as coisas. Por outro lado, a certeza da existncia de uma recompensa divina muda a vida das pessoas. E no  questo somente de otimismo. Tem algo pragmtico a. 
     Religies estimulam algo essencial para o ser humano: o esprito de comunidade. Devotos normalmente no esto sozinhos, o que ajuda nos problemas da vida. Para Andrew Clark, um dos autores desse estudo europeu e professor da Escola de Economia de Paris, as religies ajudam as pessoas a superar choques ou a pelo menos no se desesperar tanto com os tropeos da vida. Por exemplo, segundo a pesquisa, a queda no indicador de bem-estar foi menor entre os desempregados religiosos do que entre os no religiosos. "A religio oferece 'proteo' contra o desemprego", diz Clark. Na hora do aperto, h sempre algum para estender a mo. Outra pesquisa, feita pela Universidade de Michigan, EUA, comparou duas formas de amparo recebidas por idosos: o oferecido pelas igrejas e o proporcionado por servios sociais estatais. A discrepncia a favor do suporte religioso foi to significativa que o autor do estudo, o gerontologista Neal Krause, acredita haver algo de nico nesse tipo de apoio. 
     At mesmo os ateus so beneficiados pelo esprito solidrio oferecido pelas instituies religiosas. Um estudo feito por Clark investigou o efeito da religiosidade dos outros sobre o bem-estar de uma comunidade. A descoberta foi intrigante. As pessoas sem religio de regies de maioria ateia so menos felizes do que aquelas sem religio de reas onde a maior parte da populao professa uma f. ''Isso no  nada bom para os ateus: eles parecem menos felizes e tambm fazem os outros menos felizes'", concluiu Clark. A explicao para isso pode estar na compaixo incentivada pelas religies. A escritora e ex-freira inglesa Karen Armstrong, autora de mais de 20 livros sobre o tema, acredita que o princpio da compaixo est no centro de todas as tradies religiosas.  ela que nos leva a pensar no prximo e a fazer de tudo para aliviar o sofrimento e as angstias dele. 
     Antnio Gilberto Lehnen, 78 anos de catolicismo ativo, sentiu os efeitos dessa rede de apoio aps enfrentar duas cirurgias que quase lhe custaram a vida. Aos 67 anos, ele teve de passar por um transplante cardaco. Na lista de espera por um novo corao, sem saber ao certo se aguentaria, sua atitude era de gratido. "Lembro de ele me dizer, com toda a tranquilidade: 'Planeja tudo aqui que o papai do cu est cuidando de mim. Era uma atitude confiante", lembra o cirurgio Fernando Lucchese, que fez a operao. Antnio  grato at hoje. ''No sei quem foi o doador, mas no deixo nem um dia de rezar por ele e pela felicidade da sua famlia", diz.  

O QUE  A F 
     Na Antiguidade, as religies eram essenciais para unir uma comunidade. "Nas sociedades primitivas, a religio sempre exigiu tanto esforo (de unio) que no pode ser encarada s como um acidente evolutivo", diz Nicholas Wade, autor de The Faith Instinct ("O instinto da f, sem edio no Brasil). Essa unio foi questo de sobrevivncia por milnios.  o que afirma Karen Armstrong em Os 12 Passos para uma Vida de Compaixo. Organizado em pequenos grupos, o homem primitivo precisava partilhar os parcos recursos a mo. Muito antes do surgimento das grandes religies, altrusmo e generosidade j eram caractersticas primordiais a um bom lder tribal. 
     A gentica tambm ajuda a explicar a origem da f. O geneticista americano Dean Hamer causou rebulio no meio cientfico em 2004 ao anunciar a descoberta dos genes da f  ou, como ele preferiu chamar, o gene de Deus. Batizado de VMAT2, trata-se de um conjunto de genes que ativam substncias qumicas que do significado s nossas experincias. Eles atuam no crebro regulando a ao dos neurotransmissores dopamina, ligada ao humor, e serotonina, relacionada ao prazer. Durante a meditao, por exemplo, esses neurotransmissores alteram o estado de conscincia. "Somos programados geneticamente para ter experincias msticas. Elas levam as pessoas para algo novo, ouvem Deus falar com elas", explica Hamer. O pesquisador aplicou um questionrio para medir o grau de espiritualidade em um grupo de 1.001 voluntrios. Desenvolvido pelo psiquiatra Robert Cloninger, da Universidade de Washington, o levantamento trazia perguntas ligadas a crenas e rituais. Hamer avaliou os genes dos voluntrios e percebeu que as diferenas nas respostas estavam relacionadas com as variaes no gene de Deus. Essas variaes explicariam por que algumas pessoas so mais espiritualizadas que outras. 
     D para visualizar isso, literalmente. Exames de neuroimagem mostram a atividade de crenas espirituais no crebro. O time de cientistas liderado por Andrew Newberg, professor da Universidade da Pensilvnia, nos EUA, e autor do livro How God Changes Your Brain ("como Deus muda o seu crebro", sem edio no Brasil), demonstrou que Deus  parte da nossa conscincia: quanto mais pensamos nele, mais nossos circuitos neurais so alterados. No primeiro de seus estudos a respeito, Newberg avaliou o impacto da f ao analisar imagens cerebrais de freiras rezando e budistas meditando. Ele detectou aumento de atividade em reas relacionadas s emoes e ao comportamento e reduo na zona que d senso de quem somos. A diminuio de trabalho nessa regio especfica, segundo Newberg, representa a possibilidade de atingir com a meditao um estado em que se perde a noo de individualidade, espao e tempo. "Voc se torna um nico ser com Deus ou com o Universo", escreveu.  o mesmo efeito descrito por Hamer. A cincia no pode provar que Deus existe, mas consegue medir os efeitos da crena no divino nas pessoas. 
     Seria possvel, ento, transformar esses efeitos da f em um boto no crebro, que poderamos ativar quando quisssemos? O canadense Michael Persinger quis provar que sim ao criar o "capacete de Deus". Trata-se de um aparelho que estimula uma rea especfica do crebro, onde nascem pensamentos msticos e espirituais. Persinger queria saber se dava para simular a sensao de uma prece intensa ou da meditao apenas estimulando essa regio cerebral. Ele recrutou voluntrios religiosos e no religiosos para o teste. Depois de ficarem uma hora com o capacete, quatro de cada cinco pacientes relataram sentir um estado de transe, com uma sensao de deslocamento para fora do corpo. A maioria dessas pessoas tinha uma predisposio  f, mas, mesmo assim, o aparelho conseguiu simular experincias religiosas em laboratrio. Ou seja, com ele no  preciso rezar para sentir os mesmos efeitos benficos descritos na reportagem. Da mesma forma que no  preciso seguir uma religio para ter esses benefcios. 

COMO TRABALHAR SUA F 
     Que fique claro, f e religio so coisas diferentes. A religio  uma maneira institucionalizada para se praticar a f, por meio de regras especficas e dogmas. J a f  algo pessoal, ligado  espiritualidade,  busca para compreender as respostas a grandes questes sobre a vida, o Universo e tudo mais. Isso pode ou no levar a rituais religiosos. Voc pode buscar essas respostas pulando sete ondinhas, acendendo velas, consultando o horscopo da Susan Miller, pregando faixas de Santo Expedito ou investigando quilos de livros de fsica quntica. Cada um tem seu jeito prprio. 
     Vale at ficar louco de cogumelo. Foi o que Roland Griffiths, professor da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, props. Sua equipe deu a 36 voluntrios cpsulas com altas doses de psilocibina, substncia presente em cogumelos alucingenos. O grupo deitou em sofs com olhos vendados ao som de msica clssica. Depois de uma sesso de seis horas, passado o efeito, a maioria relatou ter experimentado uma forte conexo com os outros, um sentimento de unio, amor e paz. At a, parecia papo de doido. Mas o professor voltou a falar com os voluntrios um ano depois. Eles disseram que se sentiam diferentes. A expertencia os tornou pessoas melhores, o que foi confirmado pelas famlias deles. "Se a psilocibina pode causar sensaes msticas idnticas quelas que ocorrem naturalmente, isso prova que esse tipo de experincia  biologicamente normal", disse Griffiths no frum de palestras TED. Mais que isso: talvez, drogas alucingenas tenham benefcios. 
     Mesmo sem cogumelos alucingenos ou um capacete de Deus,  possvel atingir artificialmente as benesses da f. Cientistas garantem que basta ter uma forte crena em algo  e nem precisa ser uma divindade ou fora superior. Pode ser qualquer coisa realmente importante para a pessoa. ''Se para os crentes  Deus, para os ateus pode ser famlia ou amigos", diz Michael Shermer, diretor da Sociedade Ctica e autor do livro The Believing Brain ("o crebro crente", sem edio no Brasil). Teoricamente, um ateu pode ter uma poderosa experincia mstica", endossa Andrew Newberg. O pai do gene de Deus, Dean Hamer, segue a mesma linha. "Algumas das pessoas mais espiritualizadas que conheo no acreditam em divindade nenhuma", escreveu no trabalho em que relatou a descoberta gentica. Outra grande autoridade no assunto, o psiclogo Kenneth Pargament, do Instituto de Espiritualidade e Sade do Centro Mdico do Texas, sugere cultivar a espiritualidade exercitando o que ele chama de santificao atesta. Significa dar a algo importante da vida um status sagrado, mesmo sem acreditar em Deus. A foto do seu filho quando beb pode ser muito mais sagrada para voc que a imagem de Santo Antnio, por exemplo. 
     No se trata de banalizar a sacralizao, mas o contrrio: exercitar a f dessa  forma  uma postura antibanalizao da vida, qualquer aspecto pode assumir um carter divino. E esse hbito de sacralizar aspectos do cotidiano  capaz at de alterar nosso comportamento, segundo uma pesquisa que acompanhou recm-casados. Os casais que consideravam o casamento e o sexo sagrados estavam mais felizes  e transavam mais! No trabalho  a mesma histria. Outro estudo, realizado no ano passado, avaliou 200 mes de famlia que haviam acabado de concluir uma ps-graduao. Apesar da dupla jornada, aquelas que encaravam a carreira como parte de algo maior (e no s a fonte de renda para pagar as contas do ms) se disseram muito mais felizes profissionalmente  e menos cansadas. 
     Em tese, portanto,  possvel usufruir de benefcios semelhantes aos proporcionados pelas crenas divinas apenas focando as energias naquilo que faz bem a voc. O psiclogo Elisha Goldstein, autor do best-seller The Now Effect ("o efeito 'agora'", sem edio no Brasil), desenvolveu um mtodo que consiste em cultivar momentos sagrados. Primeiro, voc escolhe objetos que trazem boas lembranas. Valem fotos de infncia, o relgio do av, uma carta de amor, o primeiro gibi. Todos os dias, preste ateno a esse amuleto por no mnimo cinco minutos. Deixe que os pensamentos invadam sua mente. Relaxe. Aps trs semanas, avalie suas emoes. Segundo Goldstein, os voluntrios que participaram do experimento relataram sentimentos de gratido, humildade e empatia. Isso porque eles se reconectaram quilo que realmente importa. Consequentemente, se sentiram menos ansiosos e pessimistas e mais dispostos a ajudar quem precisa. Isso sem ter de orar ou  meditar seguindo preceitos religiosos. Esses benefcios dependem da intensidade da crena. Quem vai  igreja e fica jogando Candy Crush Saga no celular dificilmente vai usufruir das vantagens da f. Newberg resolveu passar isso a limpo e pediu a um grupo de ateus que pensassem em Deus. Nenhuma mudana significativa ocorreu. Para eles, no fazia o menor sentido. Ento, o melhor  se engajar em atividades em que voc realmente acredita. Se seu negcio no  integrar uma igreja, o psiclogo Michael McCullough lembra que algumas ONGs tm regras de conduta e convivncia semelhantes, reproduzindo os mesmos mecanismos das religies que incentivam compaixo, autocontrole, senso de comunidade e comportamento tico. 
     Da mesma forma que  possvel ter os benefcios da f mesmo sem religio, h ocasies em que ela faz mal  e nem precisamos entrar no mrito das guerras religiosas. Atribuir a Deus poderes milagrosos pode levar pacientes a abandonar tratamentos. H tambm um outro componente preocupante. Em algumas pessoas, ocorre o que os especialistas chamam de conflito religioso, sentimento que leva a acreditar que a doena ou os sofrimentos so punio divina. Nesses casos, a religio tem um efeito desastroso. Um estudo publicado na revista cientfica americana Archives of Internal Medicine mostrou que esse conflito est associado a depresso, ansiedade e maior ndice de mortalidade. Se fosse bom, f cega no teria esse nome. 

SEGUIR UMA RELIGIO FAZ BEM PARA A SADE
Uma pesquisa com 259 pacientes cardacos revelou que a maioria usa a f para lidar com a doena.
Acreditam em Deus 99%
Rezam todos os dias 66%
Acreditam que a religio traz benefcios  sade 52%
Usam a f como conforto nos momentos de doena 90%
Gostariam que os mdicos falassem sobre religio 31%

Pessoas que consideram sua sade excelente
Ateus 25%
Membros de grupos religiosos 40%

Quem acredita em Deus tem 3 VEZES MAIS CHANCE DE SOBREVIVER APS UM TRANSPLANTE DE FGADO.
Pessoas que vo a cultos religiosos pelo menos uma vez por semana tm 40% MENOS prevalncia de hipertenso que aquelas que no seguem uma religio.
7 ANOS a mais de expectativa de vida.  a vantagem de quem frequenta cultos toda semana sobre os que nunca vo a um templo.

F DO LABORATRIO
Imagens cerebrais de freiras e monges budistas durante orao e meditao.
Duas reas do crebro ativadas: os lobos frontais (parte responsvel pela concentrao) e o sistema lmbico (relacionado s emoes).
O lobo parietal, responsvel pelo senso que temos de ns mesmos e do mundo, tem reduo de atividade. Isso ajuda a explicar a sensao de perda de noo do tempo e do espao ao meditar.

EXERCER A F TORNA AS PESSOAS MAIS AMIGVEIS
Religiosos so 2 A 3 VEZES mais propensos a participar ativamente da vida pblica.
Quem pensa em Deus ou em algo divino tende a fazer 2 vezes mais doaes em dinheiro.
Quem considera o casamento sagrado  42% mais feliz.
Quem vai a templos religiosos faz 2,5 VEZES mais trabalhos voluntrios que aqueles que no vo.

RENDA MENSAL DE FAMLIAS RELIGIOSAS  MAIOR [dados referentes a famlias americanas]
Ganham mais de US$ 100 mil por ano
JUDEUS 46%
HINDUS 43%
BUDISTAS 22%
CATLICOS 19%
POPULAO TOTAL 18%

O CAPACETE DE DEUS
Mquina ativa as regies do crebro envolvidas com a espiritualidade.
O capacete estimulou o lobo temporal direito, rea dos pensamentos msticos: 80% dos pacientes disseram sentir um estado de transe.
A mquina provou que  possvel simular a sensao de prece intensa ou de meditao apenas estimulando essa regio. A capacidade de transcendncia  uma propriedade do crebro.

F AUMENTA A FELICIDADE
26% dos cticos disseram estar muito felizes em uma pesquisa com 3.014 americanos.
43% dos religiosos disseram estar muito felizes.
Entre mulheres na ps-menopausa quem frequenta templos religiosos  56% mais propensa a uma viso otimista da vida.
Pessoas espiritualizadas so 2 vezes mais propensas a se declarar "muito felizes do que aquelas que no cultivam a espiritualidade.
Em media, indivduos com f tm uma tendncia 3 VEZES maior a ver o lado bom das coisas.

RELIGIOSOS FICAM MAIS AFASTADOS DE PROBLEMAS
Adultos que no acham religio importante:
Consomem 50% MAIS lcool
Tm 3 VEZES mais bebedeiras
Usam de 4 a 6 VEZES mais drogas ilcitas
Crentes tm 85% MENOS chances de se tornar fumantes do que ateus.
47% MENOS risco de suicdio tm aqueles que seguem uma religio.
Comem frutas e vegetais 4 vezes por semana:
RELIGIOSOS 61%
SEM RELIGIO 55%

PARA SABER MAIS
12 Passos para uma Vida de Compaixo. Karen Armstrong, Cia. das Letras, 2012
Religio para Ateus. Alain de Botton, Intrnseca, 2011
     
Modelo: Gustavo Merighi. Produo Vincius Manuel. Reportagem Valquria Vila. Fontes Associao Americana de Psiquiatria; Centro Nacional de Adio e Abuso de Drogas (EUA); Instituto Gallup (EUA).


3#2 HISTRIA  OS NOMES PREFERIDOS DO BRASIL
D para contar um pouco da histria de um pas com os nomes que os pais escolhem para seus filhos.

RANKING DOS NOMES MAIS COMUNS ENTRE TODOS OS BRASILEIROS HOJE
[50] BENEDITO  ANDERSON  ROSA  JULIANA  CLUDIO  RITA  LUCIANA  TEREZIHHA  LEANDRO  SNIA  ALEXANDRE  VERA  JOAQUIM  RICARDO  EDUARDO  JOSEFA  RODRIGO  DANIEL  SRGIO  PATRCIA  EDSON  RAFAEL  MRCIO  ANDR  ROBERTO  FBIO  SANDRA  FERNANDO  LUS  GERALDO  ADRIANA  MRCIA  JORGE  MARCELO  ANTONIA  SEBASTIO  RAIMUNDO  MARCOS  FRANCISCA  PEDRO  MANOEL  CARLOS  PAULO  LUIZ  ANA  FRANCISCO  JOO  ANTNIO  JOS  MARIA [1].

Campees em 2012
Feminino:
1 Sophia
2 Jula
3 Isabella
4 Alice
5 Manuela
Masculino:
1 Miguel
2 Arthur
3 Davi
4 Gabriel
1 Lucas

Terezinha  Homenagem a Santa Teresinha, canonizada em 1925. Os cartrios ajudaram a popularizar as verses com S e Z (alm de Teresa e Tereza).
NOMES DUPLOS - H muitos nomes femininos, mas os institutos de pesquisa consideram s o primeiro nome. Assim, Ana Maria conta como Ana e Maria Clara conta como Maria.
Nos anos 60, auge de Pel no futebol, o nome Edson cresceu 92% e ficou entre os mais populares.
Luis  A verso com Z surgiu primeiro e  mais popular. A grafia com S teve seu auge nos anos 50. Somados, eles so mais populares que Ana.
Raimundo  Nomes como Raimundo continuam no Top 50 porque foram mais populares numa poca em que as pessoas tinham mais filhos.
Manuel  Manuel, Mateus e Sebastio fizeram mais sucesso no incio do sculo 20
Pedro  Exemplo clssico de nome que foi popular e voltou  moda.
Maria  Joo, Maria, Antnio e Jos nunca saram de moda.
Lucas  liderou com Gabriel e Leonardo,  dos mais comuns desde os anos 90.

HISTRIA NO CARTRIO
Nomes da moda ao longo das dcadas.
Anos 30  Dalva  130%. Dalva de Oliveira, do Trio de Ouro, artista popular do auge da era do rdio.
Anos 40  Neusa  231%. Neusa Maria, a voz de ouro da era do rdio. Marlene  197%. Marlene, nome artstico da atriz Victria Delfino dos Santos e Marlene Dietrich, atriz alem.
Anos 50  Ademir  346%. Ademir de Menezes, artilheiro da Copa de 1950. Elisabeth  301%. Elizabeth II, rainha da Inglaterra, assumiu em 1952. Martha  173%. Martha Rocha, 2 lugar no Miss Universo de 1954 (e eterna Miss Brasil).
Anos 60  Roberto  72,5%. Roberto Carlos, voc sabe quem, cone da Jovem Guarda. Silvio  81,6%. Silvio Santos, voc sabe quem, cone da TV.
Anos 70  Simone  339%. Simone, cantora com msicas nas trilhas da novela O Profeta e do filme Dona Flor e seus Dois Maridos.
Anos 80  Camila  100%. Msica da banda Nenhum de Ns. Entre 1987 e 1988.
Anos 90  Jssica  185,5%. Msica do grupo Fundo de Quintal. O nome chegou a ser o mais popular do Pas entre 1991 e 1993. Matheus  32%. Matheus, o filho de Bebeto lembrado na comemorao de gol mais famosa da Copa de 1994. Entre 1993 e 1994. Fernando  54%. Fernando Collor. Eleito presidente, o nome teve seu auge (19 em 1989). Mas o impeachment em 1992 o afundou.
Anos 2000/10  Isabella  92%. Isabella Sawn protagonista de Crepsculo, e Isabella Nardoni, menina morta pelo pai e a madrasta. Entre 2010 e 2012.

O ranking foi realizado pela ProScore com base nos CPFs da populao. A evoluo ano a ano dos nomes foi levantada exclusivamente para a SUPER pelos institutos ProScore (1920-2000) e Certifixe (2001-2010)
Fontes: BabyCenter; pesquisa Nomes da Moda; Iba Mendes, etimologista; ProScore, bureau de informaes e anlise de crdito; Rosane Tesch, autora do livro A Criao de Nomes Prprios no Brasil.


3#3 CULTURA  A ERA DE OURO DOS GAMES
Eles esto cada vez mais acessveis, diversificados e populares. No seu bolso, na sua sala ou em museus, os videogames dominaram o mundo.
TEXTO / Felipe van Deursen
DESIGN/ Fabrcio Miranda

     Um bilho de dlares em trs dias. Ao lanar o mais novo Grand Theft Auto, em setembro, a Rockstar Games quebrou o recorde de Call of Duty: Black Ops 2, que demorou 15 dias para chegar  mesma marca, em 2012.  tanto dinheiro que j virou covardia comparar a indstria dos videogames com a do cinema. J em 2003, o cinema faturou US$ 19 bilhes em um ano que teve Senhor dos Anis, Piratas do Caribe, Procurando Nemo e Matrix. Enquanto isso, Madden NFL, Pokmon, Need for Speed e Zelda lideraram as vendas em um mercado de cerca de US$ 30 bilhes. Isso h dez anos. Hoje, essas cifras mais que dobraram, chegando aos US$ 70 bilhes (enquanto o cinema teve US$ 34 bilhes). E s vo crescer nos prximos anos. 
     A pesquisa Games Market Report aponta que em 2016 esse mercado alcanar US$ 86,1 bilhes.  uma evoluo assombrosa, que se explica, em parte, por um fato:  cada vez mais fcil ter um aparelho em que se possa jogar. Nos anos 80 e 90, ou voc tinha um console para jogar na sua TV de tubo ou um aparelho porttil, tipo Game Boy. A srie B dos jogadores de videogame era formada por quem se contentava com os chamados minigames, mais simples e baratos. Foi justo essa srie B que deu um dos grandes saltos da indstria. A av do seu vizinho que jogava Tetris em uma maquininha cinza e quadrada comprada em camel virou o que se chama hoje "jogador casual". Quem diria? Do jogo da cobrinha no tempo em que visor de celular no tinha cor  infinidade de jogos na tela Retina do iPad, a indstria descobriu um novo universo. Entre 2012 e 2016, a fatia dos tablets no mercado deve crescer 47,6% e a dos celulares, 18,8%. 
     Por outro lado, consoles caseiros devero cair 4% e portteis, 15%.  um reflexo da ascenso de celulares e tablets, que evoluem todo ano, tm uma montanha de jogos baratssimos e servem para muitas outras coisas alm de jogar. Isso levou alguns apressados a decretar a morte dos videogames tradicionais. Mas, enquanto saciarem seus fs com produtos direcionados a eles, jogadores fiis e mais exigentes, os portteis e os consoles caseiros vo durar. 
     Ou seja, o mercado est se adaptando a uma nova realidade tecnolgica sem perder nenhuma plataforma. Por isso que os videogames no param de crescer. No s h mais aparelhos disponveis como h cada vez mais opes que agradam a diversos pblicos. E ainda tem os MMOs (em que um monte de gente joga junto on-line), games para computador e os joguinhos sociais que infestam o Facebook. Isso torna o pblico maior e mais diversificado. E os mais experientes j no tm muita pacincia para explicar que videogame no  coisa de criana. Para dar o argumento IBGE da coisa: o Censo Gamer Brasil 2012 diz que 51% dos jogadores do Pas tm mais de 19 anos. 
     Para atender essa demanda,  de se esperar que o processo de produo tambm tenha realidades diferentes. GTA V teria custado, entre produo e marketing, US$ 266 milhes, pelo que se especulou antes do lanamento. So US$ 29 milhes a mais que Avatar (s para voltar a comparar com cinema). Mas o mercado no  formado s por grandes produtoras e oramentos milionrios. Assim como suas irms mais velhas, a indstria do videogame tambm viu florescer um nicho alternativo. Pouca grana, pouco brao e muita criatividade em um poro j proporcionaram grandes jogos nos ltimos anos, como Braid, Fez, World of Goo, Limbo e Minecraft, o mais bem-sucedido do gnero. Sem tanta presso por sucesso comercial, esses jogos indie exploram temticas, narrativas e grficos de um jeito muitas vezes inovador  e o melhor, sem precisar de todos os recursos tecnolgicos que um PlayStation 4 da vida oferece. Em preto e branco, com pixels gigantes ou imitando algo que seria moderno 20 anos atrs, eles reforaram a ideia de que no  necessrio ser ultrarrealista para ser bom. Criatividade conta tanto quanto tecnologia. 
     Assim como o pblico e as plataformas, as linguagens esto mais diversificadas. Jogos que capturam movimentos atraram novos jogadores, de praticantes de ioga a tenistas de sof. Viciados em games de celular precisam de mais horas de espera em consultrios para se dedicar a Clash of Clans, Pou ou um dos tantos Angry Birds. Tablets so uma boa para vrios estilos de jogos. F de Mrio? Oito lanamentos s em 2013. Saudosistas que no veem graa em nada feito depois do Mega Drive encontram uma vasta oferta nas lojas online dos consoles atuais ou na internet. Videogames esto se expandindo tanto que j so sucesso at em livro. Assassin's Creed, srie popular de jogos histricos, foi adaptada para livros, que passaram de 1 milho de cpias vendidas. Em 2015, a saga vai virar filme. 
     Agora se discute se videogame  arte. O MoMA, em Nova York, j alimenta seu acervo, de Pac-Man (1980) a Minecraft (2011). Ainda se discute se videogames podem incitar a violncia. Enquanto experts debatem, a taxa de crimes como assassinato e roubo de carro cai nos Estados Unidos desde os anos 90. Nessa poca, saiu Grand Theft Auto, cone dessa indstria bilionria. GTA V j entrou para a histria. Vende como gua e  assunto de elevador e bar. Para entender o porqu desse rebulio, exploramos todo o jogo e os seus cantos mais polmicos  por 24 horas seguidas. O motivo principal adiantamos aqui: o jogo  sensacional. Por favor, vire a pgina. 


3#4 VIDA LKA  MEU DIA DE BANDIDO
TEXTO E DESIGN / Fab-Boy
EDIO / Vandeursexxx
ILUSTRAO / Carlito Brigante

GRAND Theft Auto V precisou de 72 horas para se tornar o produto mais lucrativo da histria do entretenimento. Para entender porque o jogo fascina tanto, nosso diretor de arte encarou, a trabalho, 24 horas de jogatina sem parar. Em cinco minutos, j tnhamos a resposta. 

 difcil fugir de uma Bravado Banshee. Percebi isso quando estava sentado no banco de passageiros dele, com o brao para fora empunhando uma submetrallladora. O carro  um dos mais desejados esportivos americanos, uma lenda de Liberty City a Los Santos. Deu para entender a fama quando o motorista pisou fundo e alcanou o Chevy do colombiano que cavamos. Uma pancada na traseira e os dois carros rodaram, ficando um de frente para o outro. Para o azar do Colmbia, descarreguei a SMG e o cobri de balas. Ele tinha inimigos que nos pagaram uma gorda recompensa pela sua cabea. Mal comeamos a dividi-la e deu para ouvir a polcia chegando. Foi a que olhei no relgio (o de verdade) e vi: j fazia 24 horas que estava jogando GTA V. Hora de parar. 
     Eu poderia estar matando, roubando. Foi o que fiz, desde a noite anterior, quando iniciei uma sesso on-line de Grand Theft Auto V, aguardado com ansiedade por fs (como eu) desde seu anncio, no final de 2011. O desafio era experimentar as possibilidades que o jogo oferece e descobrir que tipo de criminoso est  disposio quando se precisa de um parceiro no crime. Vinte e quatro horas pareceram um tempo razovel. Tambm era um nmero emblemtico: nas primeiras 24 horas de venda, ele virou o produto com a maior receita gerada na indstria do entretenimento. Mais que qualquer filme ou disco na histria. 
     Jogar 24 horas seguidas pode ser um exagero para a sade,  claro, mas para as possibilidades de GTA no. A srie ficou notria no s pela violncia e humor satrico, mas por ser um jogo de mundo aberto, ou seja, em que voc circula com liberdade para escolher o que fazer (ver um striptease ou explodir um carro de sorvete?). No modo off-line, h uma histria com comeo, meio e fim. Mas, no on-line, que estreou em outubro, no: l se encontram milhares de jogadores, cada um com sua carreira no crime. 
     Ao comear, tenho de criar o bitipo do personagem dentre milhares de combinaes possveis. Sou Fab-Boy, mistura dura de roer de latinos e irlandeses. Estava pronto para chegar a Los Santos, a Los Angeles fictcia onde a histria se passa, apresentada numa introduo digna de filme de ao. A bordo do avio que cruza o cu, eu, o maior criminoso que a cidade j viu. Bem,  assim que me sinto. 

CIDADE MARAVILHOSA 
     Los Santos tem uma agitada rea urbana e um vasto interior  disposio: belo litoral, montanhas e desertos selvagens. O mapa do jogo  to extenso (cerca de 360 km2, maior que Belo Horizonte) e cheio de possibilidades que  difcil contabilizar as opes. Assim como em outros jogos da srie, d para fazer assaltos e participar de rachas com carros roubados etc. De acordo com o desempenho, voc ganha dinheiro e pontos de reputao. Quanto mais grana, mais itens pode comprar (bvio). Quanto mais reputao, mais misses pode fazer. No incio, esquea corridas com carros luxuosos e superarmas. Melhor focar em lojinhas e postos de gasolina. Vida de ladro de galinha. Esses lugares tm menos segurana que bancos e joalherias. Gastei as primeiras horas de jogo cometendo pequenos roubos e tentando fazer amigos on-line. 
     Com milhares de pessoas jogando ao mesmo tempo pelo mundo, eu ouvia comentrios deslumbrados de jogadores explorando as paisagens de Los Santos (com um headset,  possvel conversar e ouvir outras pessoas on-line). Era comum tambm gangues surgirem.  um jeito de encontrar amigos e gastar algumas horas jogando juntos numa ''sala". As salas so universos paralelos, cada qual com uma Los Santos prpria e at 16 pessoas interagindo. Posso no ter sido uma celebridade meterica, mas consegui entrar em uma gangue depois de alguns trabalhos bem-sucedidos. Fui atrs de uns caras que aterrorizavam a sala e supliquei no meu espanhol barato para que me deixassem fazer parte do grupo. Bang! Eu estava dentro. Os trs garotos falavam o mnimo possvel comigo. A maioria das palavras eram ordens para seguir e ajudar o grupo nas misses. S descobri a nacionalidade da turma quando, depois de muito insistir, me responderam de maneira seca: '"Puerto Rico". At que me dei bem na gangue, mas tive um choque de realidade. Ao roubar uma manso em Vinewood, eles me abandonaram na fuga e me deixaram para os policiais. Trado, fui fuzilado. 

STATUS  TUDO 
     Mas GTA no tem "game over". Se morro, perco dinheiro e recomeo. Abandonei a gangue e resolvi encarar trabalhos menos violentos. Disputei corridas, mas o resultado me fez lembrar que no tenho habilitao na vida real. Tentei aulas de aviao. Saltei de paraquedas do letreiro de Vinewood (h vrios pontos tursticos de Los Angeles recriados). Joguei golfe e tnis com um canadense e andei de jet ski com um brasileiro. Num clube de striptease, gastei o pouco dinheiro que tinha por danas prives da Nikki, a moa virtual mais mercenria que j conheci. Vida boa. 
     Com essa agitada agenda, explorei o mapa da cidade, embalado pelo humor bizarro da srie, que torna GTA uma verso cida da vida real. Para criar a atmosfera de uma metrpole corrupta, h uma histria de fundo rolando enquanto voc joga. Cada metro quadrado do cenrio tem contedo para alimentar isso. Na estrada, outdoors elogiam o alto consumo de gordura e acar. Na TV (que voc pode parar para ver), Jock Cranley, poltico corrupto assumido, diz que odeia imigrantes, sindicatos e velhinhas.  um agudo senso crtico, que tem at um Facebook, o Lifeinvader ("invasor de vidas''). Isso tudo servido em grficos hiperrealistas de tirar o flego. Paisagens detalhadas e mudanas climticas me deixavam embasbacado. J meus olhos vidrados ardiam, aps dez horas de jogo. 
 medida que o dia (de verdade) passava, mudavam as pessoas que apareciam para jogar. Ao meio-dia, deixei de esbarrar em americanos e latinos e comecei a ver franceses, italianos, russos e uma gangue do Oriente Mdio, a The Israeli OutLaws. Joguei um tempo com eles. Entre um assalto e outro, iam a seu QG e me convidavam para visitar ("Come with us" era a nica frase que escapava da conversa em hebraico). Era um lugar descolado, com vista para Del Perro, bairro chique  beira-mar. Na garagem, carros esportivos de cores duvidosas. 
     Com eles, entendi uma das chaves do fascnio que GTA causa.  medida que se evolui, voc precisa de cada vez mais pontos para chegar ao nvel seguinte. Nveis mais altos liberam novas misses. Quanto mais misses, mais dinheiro. E a grana banca no s a prxima ao como tambm boas roupas, armas complexas, carros turbinados, jatinhos e manses. Comprar essas coisas no  novidade na srie. Mas GTA V refora a ideia de que seus bens refletem quem voc . Entre um tiroteio e outro, o importante para aqueles caras era se exibir. J eu estava jogando havia 15 horas e tinha apenas $19 mil. No dava nem para uma moto sem vergonha, pois escolhi ser bon vivant. Uns querem status. Outros, experincias. Por mais surreal que seja essa verso absurdamente criminosa de uma cidade, GTA reflete a vida real de um jeito difcil de ver em outros videogames. 

MENTE S, CORPO NO 
     Resolvi focar em algo mais importante, fora do jogo: dor nas costas. Tomei vrios analgsicos e mudei de posio para acalmar ombros e coluna. Estava difcil ficar confortvel, mas tinha de seguir. Aps 20 horas, me sentia desnorteado, como se estivesse bbado. Dois minutos aqui fora valem 60 no jogo. Minhas 24 horas on-line foram 30 dias l. Sem dormir, com sono, sem ver o Sol verdadeiro e vendo dia e noite surgirem a cada 48 minutos na TV, fiquei com a noo de tempo descompensada, como um jetlag. Meus reflexos diminuram. 
     Mesmo exausto e lesado, d para ver que h regras que mantm tudo sob um certo controle, evitando extremismos. Todos os personagens so adultos. No d para montar uma gangue nazista, por exemplo. Temas polticos e religiosos no so permitidos, s os criados pelos produtores. A mecnica do jogo, por incrvel que parea, desfavorece a violncia desenfreada. Quanto mais voc apronta, maior o revide (a polcia cai matando, voc perde dinheiro etc.). Isso ajuda a evitar que a lista de polmicas aumente ainda mais. 
     Precisei de algumas horas para desacelerar e conseguir dormir. Acordei de ressaca, as sirenes da polcia ainda ecoavam na cabea. Fiquei alguns dias sem jogar, mas logo voltarei a Los Santos. Certamente farei mais crimes. Mas no por 24horas seguidas. Chega! 

PLULAS DE POLMICA
Nem s de tiros e rachas vive Grand Theft Auto.

O PRIMEIRO
Em 1997, a Rockstar lanou Grand Theft Auto. O objetivo do jogo era um s: roubar carros. Os grficos eram simples mesmo para a poca, com uma viso de cima e pouca interao com o ambiente.

O SEGUNDO
GTA II chegou em 1999 e foi uma evoluo grfica do primeiro. As misses se diversificaram, no ficavam mais somente em roubo de carros.

O TERCEIRO (E O SALTO)
A srie mostrou a que veio em 2001, com grficos 3D e o incio do estilo chamado "caixa de areia", em que voc  livre para agir e interagir com o ambiente. GTA III foi o jogo mais vendido naquele ano.

O CLSSICO
Um dos melhores jogos de todos os tempos. GTA IV (2008) foi o mais caro at ento: cerca de US$ 100 milhes. Tudo bem, arrecadou US$ 500 milhes em uma semana. Os grficos e o enredo ficaram mais sofisticados. 

METRPOLES
GTA III apresentou Liberty City, verso nova-iorquina do jogo. Depois, a srie recriou Miami (Vice City), Los Angeles (Los Saltos), So Francisco (San Fierro) e Las Vegas (Las Venturas). A Londres dos anos 60 apareceu em extenses de GTA I.

TRILHAS SONORAS
Sepultura, Bob Marley, Barry White, Miles Davis... Nas rdios do jogo, artistas como Iggy Pop viram locutores e tocam msicas de tudo que  tipo. H ainda canes exclusivas, feitas para a srie.

POLMICAS
 A prefeitura de Nova York reprovou publicamente a srie.
 Censurada na Austrlia.
 GTA III: contrate uma prostituta, mate-a e roube-a.
 GTA V: torture um prisioneiro.

E MAIS UMA POLMICA
O advogado americano Jack Thompson virou inimigo pblico da srie, a ponto de exigir em tribunal a retirada de uma misso de GTA IV em que se elimina um advogado que diz que games matam pessoas. Seria ele, alegou. 

GTA V
16 milhes de cpias (e contando)
US$ 800 milhes no dia de lanamento.
US$ 500 milhes no dia de lanamento

GTA IV
25 milhes de cpias

16 jogos com a marca GTA, desde 1997.
Juntos venderam 131 milhes de cpias.


3#5 ZOOM  BOOM
O fotgrafo canadense Todd McLellan simula exploses. Ele desmontou 50 aparelhos que, juntos, continham incrveis 21.959 peas em suas entranhas.
FOTO / Todd McLellan
DESIGN / Ricardo Davino
EDIO / Cristine Kist

BRINCADEIRA DE CRIANA
Quando garoto, Todd McLellan se divertia dissecando objetos para tentar descobrir como eles funcionavam. Um par de dcadas depois, ele decidiu transformar o velho hobby em trabalho e comeou a desmontar todo tipo de aparelho profissionalmente: "As exploses so, na verdade, s peas caindo precisamente no enquadramento planejado." 

TELEFONE 148 PEAS
RELGIO 59 PEAS
MQUINA DE ESCREVER 621 PEAS
EXTINTOR DE INCNDIO 28 PEAS
REMOVEDOR DE NEVE 507 PEAS

ARREMESSO DE LIXO
McLellan tem um assistente que joga as peas para o alto vrias vezes at que elas caiam na sequncia imaginada por ele. Geralmente, o fotgrafo "explode" objetos que encontrou nas lixeiras da vizinhana ou que comprou em lojas de segunda mo, mas poucos ainda esto funcionando quando so desmontados: "E, quando esto, eu tenho de fazer um sacrifcio enorme para estrag-los." 

PARA SABER MAIS
Things Come Apart: A Teardown Manual for Modern Living.
Todd McLellan, Thames & Hudson, 2013


3#6 MUNDO  O HAITI  DAQUI
uma nao caribenha com tropas, empresas e ongs brasileiras. Saiba por que o Haiti virou praticamente o 27 estado do Brasil  e como isso influi no futuro dos dois pases.
REPORTAGEM / Renato Machado, do Haiti
ILUSTRAO / Caco Neves
DESIGN / Ricardo Davino
EDIO / Emiliano Urbim

     Do calado  beira-mar, v-se a grande baa, emoldurada por prdios, morros e favelas. Numa das favelas, ocupada por soldados, uma coregrafa ensina dana para jovens com camisas verde-amarelas. Em um gabinete do governo, uma construtora pressiona para ganhar mais por uma obra. Em outro, engenheiros buscam acelerar o projeto de uma hidreltrica. Rio de Janeiro? Salvador? Florianpolis? Na verdade, todas essas cenas se passam em Porto Prncipe, capital de um pequeno pas caribenho marcado pela misria, tragdia e, mais recentemente, pela influncia do Brasil. Nossa presena no Haiti tem sido constante e marcante:  quase como se esta meia-ilha fosse o 27 Estado brasileiro. 
     Estima-se que haja cerca de 2 mil brasileiros no Haiti. So 1.200 militares, membros da misso de paz comandada pelo Brasil desde 2004. Mas h tambm policiais, professores, executivos, jornalistas, missionrios, gente da ONU, de ONGs e at do MST.  um pequeno contingente com uma grande influncia, visvel em uma caminhada pelo centro da capital. De tanto em tanto, voc v algum com uma rplica da camisa da seleo canarinho. Em frente a prdios condenados pelo terremoto de 2010, camels vendem CDs piratas de dolos do sertanejo universitrio, como Michel Tel e Gusttavo Lima. No trnsito de poucos semforos e nenhuma multa, se destacam os tap-taps, caminhes transformados em nibus. Com a traseira coberta e bancos de tbua, eles trazem na carroceria rostos de craques brasileiros. 
     Nos cruzamentos, as crianas que limpam os carros costumavam pedir "give me one dollar'', herana da ocupao americana dos anos 90. Hoje, a frase  em portugus: "'me d um dlar''. 

MISSO CUMPRIDA 
     O Haiti divide com a Repblica Dominicana a Ilha de Hispaniola  onde Colombo desembarcou em 1492. Virou colnia da Frana at se tornar, em 1804. a primeira repblica negra do mundo. A conquista da liberdade foi seguida de uma srie de colapsos econmicos, invases estrangeiras, golpes de estado, que em conjunto fizeram do pas o mais pobre do continente. A ltima crise, em 2004, teve fim com a interveno da ONU. 
     Em fevereiro daquele ano, explodiu um conflito entre inimigos e partidrios do presidente Jean-Bertrand Aristide  que fugiu em um avio americano. A ONU aprovou uma interveno, e em abril foi criada a Misso da Organizao das Naes Unidas para a Estabilizao do Haiti (Minustah). Pela primeira vez, o comando de uma misso de paz no seria rotativo, ficaria com um nico pas: o Brasil. 
     Por que nos metemos nessa? A meta principal era chegar ao Conselho de Segurana da ONU. Descascar o abacaxi haitiano somaria crditos para entrar no clube onde EUA, Reino Unido, Frana, Rssia e China (os vencedores da 2 Guerra) debatem os conflitos mundiais. E l se foram para o Caribe nossos blindados e soldados  o Brasil sempre teve o maior contingente e comanda 7 mil homens e mulheres de 19 naes. 
     A Minustah foi recebida  bala: toda patrulha era sinnimo de troca de tiros. As operaes comearam em Bel-Air, regio pobre no centro da capital e muito prxima ao antigo Palcio Nacional, e seguiram at chegar a Cite Soleil, favela que era considerada o lugar mais perigoso do mundo. "Nossa estratgia era conquistar um ponto estratgico de onde a gente irradiava a segurana'", diz o tenente-coronel do Exrcito Adriano Fructuoso. Chefe de operaes do Brabat 1 (1 Batalho de Infantaria de Fora de Paz do Brasil) at maio deste ano, j havia atuado no "perodo quente" da misso, entre 2005 e 2006. O blindado Urutu ia avanando e a gente no sabia de onde vinham os tiros. S os escutava batendo na parte de fora e continuava atirando", afirma um cabo (que pediu para no ser identificado) que esteve no Haiti em 2006. As gangues resistiam horas at permitir a tomada de um ponto. S trs anos depois, em 2007, Cite Soleil foi considerada pacificada. 
     At hoje, a Minustah teve 175 baixas. O Brasil perdeu 25 militares e civis  ningum em combate, s em acidentes.  

MISSO COMPRIDA 
     De l para c, mudou o Haiti e mudou a Minustah. Urutus deixaram de circular pelas ruas e so usados apenas em operaes especiais. Se um protesto sai de controle, a primeira fora empregada  a polcia haitiana. Caso aumente o risco, chama-se o reforo da UnPol (a Polcia da ONU) e s em ltimo caso so enviados os militares. "O pas est mais seguro e ganhando estabilidade", diz o coronel Rogrio Rozas, que comandou o contingente brasileiro at maio. "Com isso, a Minustah pode gradualmente passar a responsabilidade para as instituies locais e planejar a sua sada do pas". A previso oficial para o fim da misso  2016. Mas, nos bastidores, a maioria acredita que ela deve se estender. 
     Se o Haiti j precisava de ajuda, precisou mais ainda: na tarde de 12 de janeiro de 2010, um terremoto devastou Porto Prncipe. Os 47 segundos de tremor foram suficientes para derrubar casas, prdios e at o Palcio Nacional. O centro da cidade, repleto de escombros e soterrados, parecia ter passado por um bombardeio. A ONU calculou que foram 200 mil mortos, enquanto o governo mantm que foram 300 mil. Morreram tambm 18 brasileiros. 
     Passados trs anos, destroos e runas ainda so visveis. Cerca de 350 mil haitianos ainda esto desabrigados, e a economia nunca se recuperou. Mesmo assim, o mundo comea a virar a pgina e o Haiti fica para trs. A ONG brasileira Viva Rio, por exemplo, chegou a ter 1.500 funcionrios (90% haitianos) nos meses aps o terremoto. Mas os recursos internacionais foram sendo reduzidos, obrigando a uma demisso em massa. Agora, so pouco mais de 200 na equipe. A Viva Rio chegou em 2006, logo aps a pacificao do centro da capital. O objetivo era revitalizar a regio. "Mas ento veio o terremoto e mudou tudo. O centro simplesmente ruiu'', afirma o diretor-executivo da Viva Rio, Rubem Csar Fernandes. A ONG mantm atualmente quatro bases no Haiti: um centro de cidadania, um parque de reciclagem, uma academia de futebol e um centro para formar profissionais de turismo. 
     Vieram religiosos brasileiros, catlicos e evanglicos. Um grupo de missionrios atua no corao de Wharf Jrmie, um dos maiores focos de misria e criminalidade do Haiti. Outros esto no norte e no vale do Rio Artibonite, no centro. A Igreja Bola de Neve tambm organiza misses frequentes ao pas. 
     No campo haitiano, j tremula a bandeira do MST. Os sem-terra criaram a Brigada Dessalines, que atua em parceria com quatro organizaes haitianas. Alm de ensinar tcnicas para a reproduo de sementes e de caprinos, o MST enviou jovens haitianos para estudar portugus e prticas agrcolas em suas escolas no Brasil. 

MISSO MIGRATRIA
     Alm das crianas que pedem dinheiro, muitos haitianos aprenderam a falar portugus fluente. O Centro Cultural Brasil-Haiti mantm turmas de portugus para cerca de 200 haitianos todos os semestres. Em fevereiro, durante o perodo de inscries, interessados madrugaram em frente ao local. ''Ns podemos aumentar as turmas no futuro, porque houve uma grande lista de espera", disse o diretor do centro, Werner Garbers. "Os haitianos querem aprender o portugus para oportunidades de trabalho ou porque tm interesse na cultura." 
     Outro motivo para aprender  morar no Brasil, vontade que se tornou bvia e lgica na cabea dos haitianos. Se o Brasil  respeitado a ponto de liderar uma misso de paz, se tem empresas multinacionais e recursos para financiar grandes projetos, ento certamente tem empregos. Nosso pas hoje disputa imigrantes com EUA, Canad e Frana. 
     A principal rota  partir de Porto Prncipe de nibus para a Repblica Dominicana. Mas o controle na fronteira vizinha ficou mais rgido, e por isso agora muitos vo de barco. De l seguem por via area at o Panam e depois para o Equador  ambos pases dispensam vistos. H rotas pela Bolvia e pela Colmbia, mas a maioria atravessa o Peru at chegar  distante fronteira com o Acre. 
     No h estimativas oficiais, mas cruzando dados chega-se a uma estimativa de 6 mil vistos concedidos e mais 6 mil haitianos que entraram no Brasil ilegalmente. Parte conseguiu viver o ''sonho brasileiro": chegou a um outro Estado, conseguiu emprego e envia dinheiro para a famlia. Outros continuam presos num limbo diplomtico onde falta trabalho, gua, comida. 
     Em 2012, o governo brasileiro tentou barrar a imigrao ilegal oferecendo vistos permanentes para famlias. Filas se formavam diariamente em frente  embaixada. Agora, a ordem  emitir o mximo de vistos que o consulado brasileiro em Porto Prncipe conseguir  algo como 2.500 por ano. Mesmo com o aumento na emisso, haitianos dormem na calada do prdio em que fica a embaixada brasileira para conseguir o documento. 
     H quem defenda que a emigrao de haitianos  um dos melhores termmetros para analisar se a atuao brasileira obteve sucesso. Quanto melhor a atuao do Brasil no Haiti, menor ser a nsia de deixar o pas caribenho.  

MISSO IMPOSSVEL? 
     Combustvel, munio, uniformes, alimentao, comida, bnus salariais. A misso de paz no Haiti j custou ao Brasil R$ 2 bilhes  ou dois Maracans. Os apoiadores da misso dizem que o investimento se justifica pela experincia: 25 mil militares conheceram ao real. E a janela est se fechando: em 11 de outubro, o Conselho de Segurana aprovou uma reduo no contingente da Minustah. O efetivo militar total ser reduzido ao longo dos prximos meses de 6.270 para 5.021. Ainda no foi definido qual ser a reduo do contingente brasileiro. 
     Mas o Brasil tambm quer que o Haiti seja uma vitrine de outras reas. No pas caribenho esto nossos maiores projetos de cooperao internacional. Com graus variados de sucesso. 
     Um plano  o de melhorar o fornecimento de energia eltrica, um problemo que emperra a economia e prejudica a populao. Em 2010, nosso governo criou um projeto para hidreltrica de 32 megawatts, que custaria cerca de US$ 190 milhes. O Brasil repassou US$ 40 milhes, o Banco interamericano de Desenvolvimento deu mais US$ 30 milhes. E foi isso: nenhum outro pas quis embarcar na empreitada. A usina Artibonite 4C est perto de completar trs anos no papel. 
     O setor privado tambm enfrenta problemas. A construtora baiana OAS foi ao Haiti fazer o trecho de uma rodovia no sul do pas mas, no meio do ano passado, exigiu uma indenizao do governo haitiano, que estaria sendo lerdo nas desapropriaes. No fim, a OAS acabou substituda por uma empreiteira dominicana, que vai receber mais do que a indenizao pedida pelos baianos. Existem articulaes para que outras empresas sigam para o Haiti, mas j foi acionado o p atrs. 
     Como contraponto, um projeto de US$ 70 milhes j rendeu a inaugurao de dois laboratrios e um hospital, com mais dois na fila. Outro desdobramento  a futura atuao de mil agentes comunitrios de sade brasileiros  200 j esto por aqui. 
     O Brasil tambm investiu US$ 20 milhes na agricultura haitiana e est cooperando para que o pas caribenho organize uma polcia rodoviria federal  sero doadas motos Harley-Davidson aposentadas em nossas estradas. Isso sem contar os recursos enviados aps o furaco Sandy no ano passado e a mesada para a realizao de eleies. ''O Brasil simplesmente no pode ignorar um Estado em necessidade", afirma o embaixador do Brasil no Haiti, Jos Luiz Machado e Costa. ''Se ns queremos ser um ator importante no mundo,  preciso se envolver.'' 
     Gostemos ou no, o Brasil decidiu se envolver. Assumimos uma responsabilidade pelo futuro do Haiti. E  por esse futuro que seremos cobrados. 

REALIDADE EM REAIS
Pas mais pobre das Amricas, o Haiti vem recebendo investimentos pesados do Brasil. Uns do certo, outros nem tanto. 

IDH (ndice de Desenvolvimento Humano)
Brasil 0.730 85 do mundo
Haiti 0.456 161 do mundo

RENDA PER CAPITA (US$)
Brasil 12.000
Haiti 1.200

ALFABETIZAO
Brasil 90%
Haiti 50%

SANEAMENTO BSICO
Brasil 80%
Haiti 25%

MORTALIDADE INFANTIL
Brasil 4.78 por 1000
Haiti 21.61 por 1000

HISTRIA DO HAITI
1492 Colombo descobre a Amrica ao desembarcar na ilha onde hoje fica o Haiti.
1697 A Espanha cede metade da ilha para a Frana  essa parte se torna o Haiti.
1801 Um ex-escravo, Toussaint Louverture, proclama a independncia. Seguem-se 100 anos de conflitos internos.
1915 Os EUA invadem o Haiti e permanecem controlando o pas at 1947.
1956 O mdico e praticante do vudu Papa Doc lidera um golpe militar e assume o governo.
1971 O filho de Papa Doc, Baby Doc, herda o governo.
1988 Baby Doc  deposto e foge.
1991 Organiza-se uma democracia, dominada pelo grupo poltico de Jean-Bertrand Aristide.
2004 Aristide foge e  deposto.
2004 ONU aprova misso de paz, liderada pelo Brasil. Realizado o "Jogo da Paz", mais diplomacia que futebol: Brasil 6x0 Haiti.
2006 Novas eleies restabelecem a democracia.
2010 Terremoto devasta o pas.
2013 ONU anuncia reduo do contingente militar da Minustah.


3#7 DINHEIRO  NERD$ VO S COMPRAS
Conhea o bairro de Berlim onde o bitcoin deixou de ser s uma curiosidade de matemticos e j comeou a dar outra cara para a economia local. 
REPORTAGEM Rafael Kenski
Edio Cristine Kist

     Estou escrevendo esta matria em um caf chamado Room 77, em Berlim, e vou pagar a conta com algo que era considerado praticamente uma brincadeira trs anos atrs. Preciso apenas puxar o celular, escanear um cdigo de barras, digitar o valor de trs centavos e, pronto, est pago. A negociao foi feita em bitcoins, uma moeda que no  aceita por nenhum banco ou governo.  apenas uma tecnologia digital, um software como qualquer arquivo do seu computador, que o dono do bar decidiu achar que vale o mesmo que dinheiro. E no s ele. No mesmo quarteiro tem restaurantes, bares, um sebo de disco e uma loja de eletrnicos, todos dispostos a receber da mesma forma. A regio ficou apelidada de bitcoinkiez (o "bairro do bitcoin", em alemo), e  tida como o lugar no mundo onde melhor se pode viver sem precisar das moedas emitidas por qualquer governo. O prprio Room 77 se define como ''o restaurante no fim do capitalismo".  
     A primeira compra de um objeto concreto com bitcoins aconteceu em 2010, quando um usurio ofereceu 10 mil para que algum enviasse duas pizzas  casa dele  o que coloca o custo atual do jantar em mais de R$ 2 milhes.  que, na poca, um bitcoin valia s alguns centavos, e agora vale mais de R$ 200 (ou pelo menos valia at o fechamento desta edio). A valorizao  resultado de uma adeso cada vez maior por parte dos usurios e dos prprios comerciantes. Mesmo no Brasil, voc pode usar bitcoins para pagar uma pousada no litoral de So Paulo ou alugar um apartamento no Rio de Janeiro. 
     Isso significa que o bitcoin j comea a preencher pelo menos um pr-requisito para funcionar como dinheiro:  algo que as pessoas querem e acreditam que tem valor. Como tambm se trata de um recurso escasso (a quantidade de moedas no mercado  controlada e vai diminuindo automaticamente com o tempo), j  meio caminho andado. O bitcoin foi inventado em 2008 para ser uma economia independente dos governos e 100% virtual:  como se o dinheiro de papel fosse extinto e sobrassem apenas as transaes feitas por home banking. 
     No ltimo ms de maio, a soma de todos os bitcoins circulando no mundo ficou acima de US$ 1 bilho pela primeira vez. Para muitos economistas,  como se o mundo tivesse ficado louco e, de repente, todos comeassem a aceitar dinheiro de Banco Imobilirio. Mas, para outros, essa  uma das maiores inovaes j provocadas pela internet, mais revolucionria que MP3 ou e-commerce.  que o grande diferencial do bitcoin  inovar no produto mais valioso de todos: o prprio dinheiro. 
     
COMO TRANSPORTAR OURO NA INTERNET?
     Quando eu disse ao caixa do Room 77 que ia pagar em bitcoins, ele ficou to surpreso quanto ficaria se eu tivesse dito que ia usar dinheiro ou o carto de crdito.  que, alm dos prprios moradores do bairro (o bitcoinkiez faz parte de uma regio muito frequentada por jovens e estudantes), muita gente de fora faz questo de passar l s para gastar suas moedas digitais. Esse movimento extra j ganhou dos comerciantes o apelido de "turismo bitcoin". 
     Mas moedas que s existem eletronicamente no so algo do futuro e nem esto restritas a pequenas regies como o bitcoinkiez. Jogos on-line como World of Warcraft e Second Life tm cada um o seu prprio dinheiro, normalmente usado para comprar e vender bens que s existem dentro da internet, mas que geraram uma economia avaliada pelo Banco Mundial em R$ 6,3 bilhes em 2011. 
     A popularidade desses servios deixou claro o potencial da internet para servios bancrios. Em teoria, no h nada que impea a realizao de transferncias instantneas para qualquer lugar do mundo com taxas baixssimas e anonimato total. Empresas como a e-gold e a Liberty Reserve tentaram fazer exatamente isso ao longo da ltima dcada. O problema  que, muitas vezes, elas eram usadas por criminosos, o que levou as empresas a serem fechadas, e os donos, condenados por facilitar lavagem de dinheiro. 
     O bitcoin tambm permite a mesma facilidade em transaes, mas com uma diferena essencial: ele no tem dono,  totalmente descentralizado. E isso faz dele algo menos parecido com o dinheiro que voc tem na carteira e mais relacionado a barras de ouro  algo que nenhum governo inventou, mas que  valioso e usado como dinheiro. 
     Ser um "ouro on-line" traz diversas possibilidades. Para comear, no  necessrio criar polticas monetrias ou confiar em banqueiros para tomar conta da sua grana. O bitcoin funciona por conta prpria, seguindo apenas as regras inscritas no software que, por sua vez, pode ser verificado por qualquer pessoa. Criar um sistema assim no  fcil. Requer rastrear quem de fato tem ou no o dinheiro e evitar que as pessoas gastem mais de uma vez a mesma moeda  afinal, tudo o que  digital pode ser copiado infinitamente. Por isso, todas as negociaes feitas em bitcoin so reunidas em um pacote e processadas por uma enorme rede de computadores a cada dez minutos. Essa rede  composta apenas por voluntrios. Como recompensa, cada pacote sorteia 25 bitcoins entre eles.  assim que novas moedas entram em circulao, o que rendeu ao processo o apelido de ''minerao":  como se os computadores estivessem extraindo dinheiro do nada. 
     No comeo, qualquer pessoa podia usar o prprio computador e ganhar uns trocados, mas o esquema se sofisticou rapidamente. Em 2011 j era preciso turbinar tanto o computador que um garoto ficou famoso por se tornar uma das primeiras vtimas dessa "nova era da economia": as quatro mquinas que tinha em seu quarto esquentaram tanto que ele, dormindo, teve hipertemia e sofreu danos cerebrais permanentes. Amadores tm poucas chances de ganhar dinheiro nesse cenrio, e menos ainda no Brasil. Como os dois insumos necessrios para a minerao  eletrnicos e energia eltrica  so muito caros por aqui, o prejuzo  garantido. 

PRECISAMOS DE UMA MOEDA ASSIM? 
     Vamos fazer um exerccio de fico cientfica: imagine a economia brasileira das dcadas de 1980 e 1990, mas em uma realidade paralela na qual o bitcoin j tivesse sido inventado. Durante a hiperinflao dos anos 80, ele seria aceito em qualquer lugar: um tipo de pagamento fcil e barato, que no s est protegido da inflao como pode at valorizar. Da, em 1990, quando o Plano Collor confiscasse a poupana, ele no conseguiria fazer nada com quem tivesse apostado na moeda virtual. E no importa o nmero de planos, pacotes ou corte de zeros que a poltica econmica fizesse, o bitcoin seguiria o seu curso. 
     Algo parecido com esse cenrio acontece hoje em alguns pases. No comeo de 2013, a ilha de Chipre sofreu uma crise que ameaava at arrastar outros pases da zona do euro. Coincidncia ou no, o nmero de downloads de aplicativos relacionados a bitcoin explodiu em poucos dias. Era bastante claro que os bancos e governos tinham falhado, e muita gente resolveu se juntar ao sonho de uma moeda que no dependesse deles. 
 inegvel que existe o risco de, subitamente, o bitcoin perder valor. Uma tecnologia que se prope a mudar toda a economia certamente vai faze  muitos inimigos. Os bancos, por exemplo, tiram boa parte de sua receita de transferncias e servios que o bitcoin se prope a fazer quase de graa. Governos tambm poderiam investir contra a novidade que tira deles o monoplio sobre a produo de dinheiro. Hoje, eles at podem processar empresas do setor por lavagem de dinheiro, mas isso no acabaria com a moeda. S que existem outras formas de ataque, como comprar e vender bitcoins em grandes quantidades e fazer o preo oscilar a ponto de deixar qualquer negociao invivel. 
     A principal ameaa  que, como toda tecnologia, o bitcoin pode se tornar obsoleto.  algo que nunca vai acontecer com o dlar ou o real, que sero sempre necessrios, nem que seja para pagar impostos. Mas o prprio bitcoin inspirou novas moedas que podem um dia fazer com ele o que o Facebook fez com o Myspace. O litecoin  quase idntico ao bitcoin; o zerocoin tenta ser 100% annimo e o ripple  promovido por uma empresa, para que as transaes sejam mais fceis e rpidas. No futuro, a concorrncia pode ser ainda maior: os prprios bancos, operadoras de carto de crdito e governos podero lanar suas verses de moedas eletrnicas. 
     O futuro do bitcoin, portanto, ainda  incerto, mas o caf Room 77 pode ser o pioneiro de uma grande revoluo. Algum risco faz parte, mas as possibilidades so enormes. Mesmo porque os cafs de Berlim que no aceitam bitcoins baseiam suas negociaes em outra experincia econmica que tambm foi considerada bastante inovadora na sua poca: o euro  e ele tambm corre bastante perigo. 

PASSO A PASSO
1- Para comear,  preciso fazer o download da sua carteira digital no site MultiBit (multibit.org) ou baixar
o aplicativo BitCoin Wallet (Android). A carteira digital funciona como uma conta corrente.
2- Voc pode comprar suas primeiras moedas em um dos muitos sites que trocam dinheiro real por bitcoins, como o Mt.Gox (mtgox.com) ou o Mercado Bitcoin (mercadobitcoin.com.br). 

3- Depois,  s procurar vendedores que trocam produtos por bitcoins  no UseBitcoins (usebitcoins.info). Para comprar, basta transferir os bitcoins da sua carteira para a carteira do vendedor.
4- Transf4rncia feita,  hora dos mineradores entrarem em ao. Eles cedem a potncia dos seus computadores para verificar todas as transaes e garantir que no ocorram fraudes.
5- A cada dez minutos, os mineradores recebem automaticamente um novo bloco de transaes. Como recompensa, eles ganham 25 bitcoins por bloco processado.  assim que o dinheiro novo entra no mercado.

A SUPER est fazendo uma experincia indita e colocando algumas matrias  venda por bitcoins na internet. ACESSE super.abril.com.br

14 DIAS
 o tampo que algum que recebe um salrio mnimo precisa trabalhar para ganhar o valor equivalente a "1 bitcoin;

O TAMANHO DO MERCADO (em 11 de outubro de 2013)
US$ 1,66 BILHO

VARIAO DE PREO
Jun/09 US$ 0
Jun/11 US$ 31,50
Jun/12 US$ 5,20
Abr/13 US$ 237
Out/13 US$ 141

O que voc poderia comprar com 1 bitcoin
24 revista SUPER
27 Big Macs
58 garrafas de refrigerante 2 l.


3#8 COMPORTAMENTO  ONDE OS GORDOS NO TM VEZ
No mercado de trabalho, nos concursos pblicos, nas marcas de roupa, na novela: a gordofobia est por toda a parte.
REPORTAGEM / Alexandre Rodrigues
DESIGN / Babi Brasileiro
ILUSTRAO / Marcus Penna
EDIO / Emiliano Urbim

     Era para ser uma simples resenha da comdia Uma Ladra Sem Limites, mas o crtico americano Rex Reed pegou pesado. "Hipoptamo fmea", "do tamanho de um trator" e "assustadoramente nojenta" foram algumas das expresses que ele usou para a atriz Melissa McCarthy. Mesmo criticado, no voltou atrs. Tudo, segundo o crtico, foi uma tentativa de alertar o pblico e a prpria Melissa sobre os perigos da obesidade: "Cada comediante obeso que j fez piada sobre a doena agora est morto de acidente vascular cerebral, doenas do corao, presso alta e diabetes". A reao da atriz ao apoio enviesado foi caridosa: "Sinto pena de quem est nadando em tanto dio". Polmico e grosseiro, o episdio no deixa de ser um reflexo de como os obesos passaram a ser vistos. Antes tratados com uma simpatia bonachona, hoje so encarados de maneira negativa, e denunciam um nova forma de preconceito: a gordofobia. 
     "Desde que o pnico sobre o aumento de peso da populao emergiu na dcada de 1990, essa viso negativa das pessoas gordas tem se intensificado", diz a sociloga australiana Deborah Lupton, professora da Universidade de Sydney e autora de Fat ("Gordo", no lanado no Brasil). O livro, publicado em 2012, analisa como tem se espalhado um estigma sobre os cidados acima do peso, "vistos como pessoas gananciosas, sem autocontrole, desorganizadas, at grotescas". 
     Na TV, gordos so ridicularizados, sofrendo para fazer dieta e se exercitar em frente s cmeras. Fala-se de uma "epidemia de obesidade'', e gordos recebem olhares de desaprovao, como se fossem emissrios da peste negra. Companhias areas e marcas de roupas penalizam seus clientes mais pesados. No Brasil, o sobrepeso virou critrio de seleo em concursos pblicos e se transformou em nota de corte no mercado de trabalho  em uma entrevista, o publicitrio e apresentador de TV Roberto Justus decretou que no se deve contratar quem est acima do peso, pois isso seria um sinal inequvoco de desequilbrio e falta de inteligncia. "Muitas campanhas contra a obesidade acabam envergonhando a quem deveriam ajudar, alm de incitarem o dio  gordura", diz Deborah.  
     Para ficar bem claro: gordura corporal em excesso , sim, um perigo. "Uns 30% dos obesos podem ter um perfil metablico e cardiovascular dentro da normalidade. Mas estudos mostram que pacientes com IMC (ndice de Massa Corporal, ou peso dividido pela altura vezes dois) superior a 30 sempre tm risco aumentado para doenas cardacas, vasculares, diabetes e cncer", diz o endocrinologista Lcio Veloso, professor da Unicamp e pesquisador de mecanismos da obesidade. 
     No Brasil, o SUS gasta R$ 488 milhes anuais com tratamentos contra a obesidade. Segundo dados do Ministrio da Sade divulgados em agosto, 51% dos brasileiros esto acima do peso (sendo 17% obesos). Em 2011, eram 48%. Campanhas por uma alimentao saudvel e uma reduo de peso so uma necessidade. O problema  que s vezes elas favorecem o aumento do preconceito.
Muitas pessoas desenvolvem um sentimento de rejeio pela obesidade mais pelos aspectos estticos e comportamentais do que pelo risco mdico", diz Veloso. 

VIGILANTES DOS PESADOS 
s vezes, o escracho esbarra no mau gosto. O comediante Jerry Seinfeld aproveitou um debate sobre uma reforma nutricional nas cantinas das escolas americanas para disparar: "Sou contra a proibio de refrigerantes. Sou a favor da continuao do processo de seleo darwinstica da espcie humana por meio do consumo de bebidas com acar. 
     Grandes companhias areas, como a americana United Airlines, j cobram dos gordinhos uma poltrona extra para deix-los viajar. A Southwest, empresa de voos de baixo custo dos Estados Unidos, no s adota essa poltica como o diretor Kevin Smith, de O Balconista e Procura-se Amy, foi obrigado a descer de uma de suas aeronaves e seguir em outro avio por seu peso ter sido considerado uma ameaa ao voo. J a ocenica Samoa Air passou a cobrar os passageiros por peso; cada quilo custa entre US$ 1 e US$ 4,16. 
     Mas quem caiu na boca do povo foi a marca Abercrombie & Fitch. Em 2007, o executivo-chefe da empresa, Mike Jeffries, disse que garotos "no legais'' e ''mulheres gordas" no deviam usar a marca. No livro The New Rules of Retail ("As Novas Regras do Varejo", ainda no lanado no Brasil), os autores Robin Lewis e Michael Dart revelam que a A&F no fabrica roupas no tamanho G e GG. S em maio de 2013, seis anos depois das declaraes de Jeffries, uma onda de protestos na porta de suas lojas levou a empresa a pedir desculpas. 
     Ser gordo tambm pode ser um problema para quem quer entrar no servio pblico. Em 2011, cinco professoras aprovadas em concurso no puderam entrar para o funcionalismo paulista devido  obesidade. E h o caso de Ricardo Duailibe Leito, aprovado para a vaga de fiscal de rendas do Estado de So Paulo em um dos mais difceis concursos do Pas e reprovado no exame mdico. O motivo: com 127 quilos,  considerado obeso. "Todos os meus exames esto dentro da normalidade, fao exerccios regularmente e meu fsico no representa nenhum entrave no meu cotidiano", afirma Ricardo. Mesmo assim, no conseguiu convencer um perito de que seu IMC, de 44,4, no significa falta de sade. S aps perder dez quilos e passar por uma junta de trs profissionais  que foi aceito no emprego. Ele reclama: "S quem  gordo sabe o que  isso. Em todo lugar tem algum dizendo que voc deveria fazer um regime". A Secretaria de Gesto Pblica do Estado de So Paulo se defendeu: "no decorre de atitude excludente ou preconceituosa e sim pelo quadro de sade ir de encontro ao Estatuto do Funcionalismo Pblico". Segundo o comunicado, as percias levam em conta o perodo por que deve se estender a carreira do funcionrio. 

ABAIXO A MAGROCRACIA 
     Provar que casos assim so um exagero  a misso de Marilyn Wann, principal ativista do movimento gordo nos EUA. Autora de Fat!So? (a exclamao transforma a gria ofensiva fat-so em "Gordo! E da?"), ela mede 1,64 m e pesa 133 quilos. Anos atrs, perdeu o namorado e o plano de sade por ser obesa. Para protestar, escreveu um manifesto pelo amor prprio dos gordos e contra o preconceito. Reaes de outros contando casos parecidos a fizeram ir adiante. "Tem gente que passa a vida inteira de dieta, infeliz e insatisfeita, estimulada pela mdia e pela publicidade'', acusa Marilyn. 
     A gordofobia  um tema at na novela das nove da TV Globo, Amor  Vida. Depois de cem captulos vendo a enfermeira gordinha Persfone continuar virgem e sem namorado, os fs perderam a pacincia. Uma petio na internet reuniu 3.600 assinaturas para pedir mudanas na personagem de Fabiana Karla, acusada de estimular a gordofobia com sua infelicidade. Mas o autor Walcyr Carrasco diz que a inteno era de denncia. "Acredito que atualmente gordos so mais discriminados que os negros", escreveu Walcyr em seu blog. "J vivi isso na pele, porque j fui praticamente obeso." E prometeu: "As gordinhas um dia me agradecero". Seja como for, a personagem finalmente arrumou um namorado, mesmo sem deixar de ser virgem. Mas seu martrio continua. Ela agora enfrenta problemas com a famlia do gal. Por ser gorda. 


3#9 SADE  CAFEINMETRO
Voc pode encontrar sua dose de cafena em chs, refrigerantes, energticos, doces, remdios, at no caf.  Conhea a concentrao do estimulante em fontes e doses diferentes  e ateno para no passar do limite dirio de 250 miligramas.
INFOGRFICO / Emiliano Urbim, Ricardo Davino e Daniel Ozana.

MEDIDA: Miligramas de cafena

ZERADOS E QUASE
Refrigerante sabor laranja 355 ml
Refrigerantes com sabor de laranja e limo no contm cafena. O de guaran tem, mas bem menos do que se imagina: 2 mg por lata.
Caf descafeinado 30 ml/; 7 mg
Descafeinado, s que no -  Descafeinado no  sinnimo de sem cafena. Uma xcara de expresso desse tipo, por exemplo, ainda tem 7 mg.
Chimarro 200 ml: 20 mg
Barra de chocolate amargo 170 gr: 30 mg
Refrigerante sabor Cola 355 ml: 35 mg
Xcara de ch 240 ml: 40 mg
Chs e mates  A tradicional bebida inglesa tem o dobro de cafena da tradicional bebida gacha: so 40 mg em uma xcara de ch forte e 20 mg em uma cuia de chimarro  nvel que cai a cada dose com a mesma erva.
Expresso 30 ml: 60mg
Analgsico 1 comprimido: 65 mg
Em plulas  Alguns remdios tm cafena na sua composio. Um comprimido de analgsico pode ter 65 mg, cinco a mais que uma xcara de expresso.
Guaran em p 2g. Energtico 250 ml: 80 mg
Mais em menos  Em 30 ml de caf expresso bem tirado, h 60 mg de cafena. A concentrao  de 2 miligramas por mililitro, cinco vezes mais do que aquele energtico que te d asas. E tambm d para misturar com usque e vodca.
Caf solvel 240 ml: 100 mg
Caf coado 240 ml: 150 mg
Copo de cafeteira 476 ml: 260 mg
O LIMITE DIRIO  Acima de 250 mg por dia (quatro expressos ou 2,5 energticos), a cafena j comea a fazer mais mal do que bem. Fique atento para no romper essa barreira, ou voc periga at sofrer uma crise de abstinncia  o principal sintoma so dores de cabea.

Fontes: Caffeine contente for coffee, tea, soda and more. Mayo Clinic; Determinao de cafena em Bebidas Atravs de Cromatografia Lquida de Alta Eficincia (CLAE); revista Sade.


3#10 ESPAO  DOS RASTROS AOS ASTROS
Voc consegue comparar uma sala grande com um quarto pequeno. Mas e um vrus com uma bactria? E o Brasil com a Lua? E os planetas com o Sol? Para ajudar, uma escala que vai do microscpico ao astronmico, utilizando sempre a mesma medida: metros. 
INFOGRFICO / Alexandre Versignassi, Jorge Oliveira, Fabrcio Miranda e Emiliano Urbim

DA HLICE AO GLBULO
Quando pensamos em estruturas pequenssimas, nossa tendncia  imagin-las mais ou menos do mesmo tamanho. Mas a verdade  que o DNA  90 vezes menor que o vrus do HIV, que por sua vez  uma venenosa agulha no imenso palheiro de um glbulo branco. 
DNA 0,000000003 m
HIV 0,00000009 m
E. coli 0,000002 m
cromossomo X 0,000004 m
ncleo celular 0,000007 m
glbulo branco 0,00001 m

DO GLBULO  BACTERIONA
Nosso olho nu no  capaz de diferenciar nossas clulas, mas j enxerga o dcimo de milmetro de uma gota de orvalho. Com 75 gotculas, voc chega  rea de uma Thiomargarita namibiensis, a maior bactria conhecida.
glbulo branco 0,00001 m
clula da pele 0,000035 m
gota de orvalho 0,001 m
ameba 0,0003 m
gro de sal 0,0005 m
T. namibiensis 0,00075 m

DA BAGTERIONA A VOC
A megabactria da Nambia  um parente distante, mas a formiga lava-ps j  do nosso reino, e a codorna j  ave, classe vizinha aos mamferos  onde est nossa espcie, cuja mdia de altura  de 170 cm.
T. namibiensis 0,00075 m
lava-ps 0,005 m
ovo de codorna 0,03 m
humano 1,7 m

DE VOC A PARIS
Na Renascena, o homem era o centro e a medida de todas as coisas. Desde a inveno do elevador que o cu  o limite. Ainda assim, h franceses que torcem o nariz para a Torre Eiffel, desproporcional ao resto de Paris, com seus prdios baixos.
humano 1,7 m
Cristo Redentor 38m
Torre Eifel 324 m

DE PARIS A FOZ
A antena da Torre Eiffel alcanaria o tornozelo de um gigante da altura do Everest. E o mesmo gigante seria uma pulga sobre o Paran, que tem 660 km de Guaraqueaba a Foz do Iguau.
Torre Eifel 324 m
Everest 8.800 m
Paran 660.000 m

DE FOZ AOS VIZINHOS
O Paran no  preo para Pluto. Mas a distncia do Oiapoque ao Chu  maior do que entre os polos lunares. A Terra  maior que os vizinhos, mas  mirim diante de outros planetas.
Paran 660.000 m
Pluto 2.300.000 m
Lua 3.500.000 m
Brasil 4.400.000 m
Mercrio 4.900.00 m
Marte 6.800.000 m
Vnus 12.000.000 m
Terra 12.700.000 m
Urano 51.000.000 m

DOS VIZINHOS AOS GIGANTES
No  tecnicamente correto dizer isso, mas voc vai entender: no espao, o buraco  mais embaixo. Urano, um monstro perto da Terra,  um nanico perto de Jpiter, que desaparece frente s estrelas.
Urano 51.000.000 m
Saturno 120.000.000 m
Jpiter 140.000.000 m
Sol 1.400.000.000 m
Estrela Sirius A 2.500.000.000 m
Vega 3.800.000.000 m

DOS GIGANTES AO INFINITO
Diferente de seu homnimo no Street Fighter, Vega no duraria um round contra Aldebaran ou Canis Majoris. Maiores que esse tipo de estrelas, s conjuntos de astros, como o Sistema Solar. E o limite  o Universo, que mede, de ponta a ponta, 1,6 octilho de metros.
Vega 3.800.000.000 m
Capela 17.000.000.000 m
Aldebaran 60.000.000.000 m
Canis Majoris
3.000.000.000.000 m
Sistema Solar 15.000.000.000.000 m
Universo 1.600.000.000.000.000.000.000.000.000 m


